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Bélgica

Ghent (Gent): o que fazer na cidade medieval mais autêntica da Bélgica

Ghent, localizada na região da Flandres, no noroeste da Bélgica, é uma cidade rica em história, cultura e charme. A cidade combina arquitetura gótica deslumbrante, canais pitorescos e uma energia jovem contagiante, impulsionada por seus mais de 80 mil estudantes universitários.

Suas ruas de paralelepípedos, casarões medievais e margens de rio fazem da cidade um verdadeiro tesouro escondido da Europa.

Dependendo do idioma, você vai encontrar essa cidade grafada de formas bem diferentes. Gent é o nome original, em neerlandês; em português, o mais comum é Gante; em francês aparece como Gand; e em inglês — a forma que vamos adotar ao longo deste texto — é Ghent. Por trás de todas essas variações está sempre o mesmo lugar: a capital da província de Flandres Oriental, na Bélgica.

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Neste artigo você vai ver:

  • Onde fica Ghent
  • Como chegar em Ghent
  • Como visitar Ghent
  • História da cidade.
  • Principais pontos para conhecer.
  • Canais, mercados e vida local.
  • Eventos e festivais.
  • Como organizar sua viagem com guia, motorista ou concierge.

Informações básicas sobre Ghent:

  • Onde fica Ghent: fica na região de Flandres, no noroeste da Bélgica, entre Bruxelas e Bruges. É a capital da província da Flandres Oriental, conhecida pelo centro histórico medieval, pelo castelo dos condes e pelo Retábulo do Cordeiro Místico, uma das obras de arte mais importantes da história europeia.
  • Como chegar em Ghent: a cidade é acessada de trem a partir de Bruxelas (cerca de 30 minutos) ou de Bruges (cerca de 25 minutos), tornando-a uma parada natural em qualquer roteiro pela Bélgica.
  • Como visitar: Ghent pode ser visitada em um dia completo, embora dois dias permitam explorar com mais calma os museus e os bairros mais tranquilos. É facilmente combinada com Bruges e Bruxelas no mesmo roteiro.
  • Melhor época: abril a junho e setembro a outubro costumam oferecer uma experiência mais agradável. Julho é o mês da Fête de Gand, quando a cidade se transforma em um dos maiores festivais de rua da Europa.

História de Ghent

Ghent é uma cidade com uma história que remonta a mais de mil anos, e poucos lugares na Europa preservam de forma tão visível as marcas de cada uma de suas fases: da origem celta ao esplendor têxtil medieval, da rebeldia contra os Habsburgos à revolução industrial do século XIX.

Origens celtas, romanas e os primeiros ataques vikings

A ocupação da região remonta a povoados celtas assentados na confluência dos rios Leie e Escalda — o próprio nome “Gante” deriva provavelmente do termo celta “ganda”, que significa “confluência”. Essa posição estratégica, no encontro de dois rios navegáveis, foi o que permitiu à cidade se desenvolver como entreposto comercial já durante o período galo-romano.

Entre os séculos VII e IX, a região recebeu a influência de missionários cristãos como São Amando, fundador das abadias de São Bavão e São Pedro, que se tornariam núcleos religiosos e econômicos ao redor dos quais a cidade cresceu. No século IX, no entanto, Gante sofreu sucessivos ataques de invasores vikings, que saquearam e incendiaram as abadias por diversas vezes — episódios que marcaram profundamente a memória da cidade em seus primeiros séculos de existência.

O apogeu medieval: a cidade do pano

Foi entre os séculos XII e XIV que Gante viveu sua verdadeira transformação, tornando-se um dos maiores centros têxteis da Europa. Milhares de teares produziam panos de lã a partir da matéria-prima importada da Inglaterra, e a riqueza gerada pelo comércio transformou Gante, por um período, na maior cidade da Europa depois de Paris, superando até mesmo Londres em população.

Esse poder econômico veio acompanhado de força política. Durante a Guerra dos Cem Anos, o rico mercador de tecidos Jacob van Artevelde assumiu a liderança de facto da cidade, rompendo com o conde de Flandres — aliado do rei da França — e firmando alianças com a Inglaterra, de quem dependia a importação de lã. Em 1340, Van Artevelde recebeu o rei inglês Eduardo III na Vrijdagmarkt (Praça da Sexta-Feira), reconhecendo-o como legítimo rei da França, um gesto de ousadia política vindo de um simples cidadão. Cinco anos depois, porém, tensões internas entre as guildas resultaram em seu assassinato, em 1345. Uma estátua do século XIX ainda hoje o homenageia bem no centro da praça.

As guildas de artesãos e comerciantes seguiram como uma força política poderosa em Gante por gerações, protagonizando novas revoltas — como a de 1379 a 1385, liderada por Philip van Artevelde, filho de Jacob — sempre na defesa da autonomia da cidade frente aos condes de Flandres e, mais tarde, aos duques da Borgonha.

O confronto com Carlos V e os “carregadores de laço”

O capítulo mais dramático da história aconteceu no século XVI, sob o domínio dos Habsburgos. Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico e rei da Espanha, havia nascido justamente em Ghent, no Prinsenhof, em 1500. Ainda assim, isso não impediu um confronto direto entre o imperador e sua cidade natal.

Em 1537, exigido a contribuir com pesados impostos para financiar as guerras de Carlos V contra a França, Gante foi a única entre as províncias dos Países Baixos a se recusar a pagar. A revolta se espalhou, e em 1539 os cidadãos chegaram a oferecer lealdade ao rei francês Francisco I como forma de pressão. Carlos V, no entanto, decidiu resolver o problema pessoalmente: atravessou a França em pleno inverno, reuniu tropas na Alemanha, na Espanha e nos Países Baixos e, em fevereiro de 1540, entrou na cidade à frente de um exército de cerca de 5 mil soldados. A cidade, tomada de surpresa, não ofereceu resistência.

A punição foi exemplar. Em 3 de maio de 1540, os líderes da revolta foram forçados a desfilar da prefeitura até o Prinsenhof descalços e vestidos de preto, enquanto cinquenta trabalhadores marchavam à frente usando apenas camisas brancas e cordas de forca ao redor do pescoço — símbolo de que mereciam a forca. Ajoelhados diante do imperador, tiveram que implorar por clemência. Vinte e cinco líderes foram executados, a cidade perdeu todos os seus privilégios históricos por meio da chamada “Concessão Carolina”, suas guildas foram desmanteladas, o famoso sino Roland foi retirado do Belfry e a antiga Abadia de São Bavão foi demolida para dar lugar a uma fortaleza militar, o Castelo dos Espanhóis, construído para manter a cidade sob vigilância permanente.

Desde então, os habitantes de Ghent carregam com orgulho o apelido de “Stroppendragers” (“carregadores de laço”), transformando um símbolo de humilhação em símbolo de identidade e resistência. Até hoje, a Confraria dos Stroppendragers reencena o episódio anualmente durante o Gentse Feesten, desfilando pelas ruas da cidade com cordas ao pescoço — não mais como punição, mas como celebração do espírito rebelde de Gante.

Guerra, declínio e reinvenção industrial

Nas décadas seguintes, Ghent desempenhou papel de destaque nas guerras religiosas que sacudiram os Países Baixos: foi ali que, em 1576, foi assinada a Pacificação de Gante, tratado que uniu momentaneamente as províncias do norte e do sul contra as tropas espanholas amotinadas. O período calvinista que se seguiu, porém, terminou com a reconquista católica da cidade, e Gante entrou em um longo declínio econômico que se estenderia por mais de dois séculos, agravado pelas guerras da Independência Holandesa e pelas sucessivas mudanças de domínio — espanhol, austríaco e, por fim, francês, sob Napoleão.

A reviravolta viria no início do século XIX, quando o empresário Lieven Bauwens introduziu contrabandeada da Inglaterra a “mule jenny”, máquina de fiar algodão que revolucionou a indústria têxtil da cidade. Gante tornou-se assim pioneira na revolução industrial do continente europeu, ganhando o apelido de “Manchester do Continente”. Em 1830, a cidade passou a integrar o recém-formado Reino da Bélgica, consolidando-se ao longo do século XIX e XX como um importante polo universitário, cultural e industrial da região da Flandres.

O que fazer em Ghent – Principais Atrações:

1. Castelo dos Condes (Gravensteen)

O Gravensteen, ou Castelo dos Condes, é uma joia da arquitetura militar medieval e uma das principais atrações turísticas da cidade. Esta fortaleza cercada por fosso foi construída entre 1157 e 1191 sob o comando de Filipe da Alsácia, Conde de Flandres, e é o único castelo com fosso completamente preservado de toda a região flamenga.

Construído para servir como sede do poder dos condes de Flandres, o Gravensteen é um testemunho da força política da região durante a Idade Média e uma das realizações mais marcantes da arquitetura defensiva do século XII.

Ghent

Os visitantes ficam impressionados com as muralhas ameadas, os torreões e o fosso que cerca toda a estrutura, bem-preservados no coração da cidade velha. Ao longo dos séculos, o castelo teve funções variadas — sede judicial, prisão municipal e até casa da moeda —, o que explica por que seu interior abriga também uma coleção de instrumentos medievais de justiça e tortura.

2. Catedral de São Bavão (Sint-Baafskathedraal)

A Catedral de São Bavão é o principal templo religioso de Ghent e abriga um dos tesouros mais importantes da história da arte ocidental: o Retábulo de Ghent (também chamado de “Adoração do Cordeiro Místico”), um políptico do século XV pintado pelos irmãos Hubert e Jan van Eyck, considerado um marco fundador do Renascimento no norte da Europa.

A catedral também guarda obras de Peter Paul Rubens e outros mestres flamengos. A história do retábulo é repleta de intrigas: a obra já foi roubada, desmembrada e chegou a ser cobiçada por Adolf Hitler, que a queria como peça central de seu planejado museu em Linz — o painel havia sido devolvido à Bélgica pela Alemanha após o Tratado de Versalhes, o que aumentava seu valor simbólico para o regime nazista.

3. O Belfry (Belfort van Gent) – A Torre da Liberdade

O Belfry é a torre símbolo de Ghent e parte do conjunto das “Três Torres” que caracterizam o horizonte da cidade. Com cerca de 91 metros de altura, é o campanário mais alto da Bélgica, construído no século XIV como símbolo da independência da cidade frente ao poder dos condes e da Igreja.

No topo da torre, um dragão dourado — mascote não oficial que vigia a cidade desde a Idade Média. Dentro do Belfry, um pequeno museu conta a história dos carrilhões, e é possível ver de perto o famoso sino “Roland” e o grande tambor giratório que aciona a música do carrilhão.

4. Igreja de São Nicolau (Sint-Niklaaskerk)

Erguida no estilo gótico escaldiano, típico da região, a Igreja de São Nicolau era o templo dos comerciantes e guildas medievais, dedicado ao santo padroeiro dos mercadores. Sua fachada imponente, em pedra azul-acinzentada, completa o trio das Três Torres de Gante e domina a paisagem do Korenmarkt, a praça central da cidade.

5. Graslei e Korenlei – As Margens Históricas do Rio Leie

Graslei e Korenlei são duas margens que se enfrentam ao longo do rio Leie, no coração do centro histórico de Ghent. Ali, fachadas de casas de guildas dos séculos XII ao XVII, com frontões escalonados e detalhes ornamentados que vão do gótico ao renascentista e barroco, formam uma das vistas mais fotografadas da Bélgica.

Durante séculos, esse trecho do rio foi o principal porto comercial de Ghent, quando as poderosas corporações de ofício da cidade construíam ali suas sedes para exibir sua riqueza e prestígio. Hoje, a área é repleta de cafés, bares e pontos de partida para passeios de barco pelos canais da cidade, especialmente charmosos ao entardecer, quando a iluminação noturna realça as fachadas históricas.

6. Ponte de São Miguel

A Ponte de São Miguel (Sint-Michielsbrug) oferece um dos melhores panoramas de Ghent: de um só ponto é possível avistar simultaneamente o Castelo dos Condes, as Três Torres e as margens de Graslei e Korenlei.

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