Dentro da Catedral de São Bavão, em Gante, na Bélgica, existe uma pintura tão cobiçada que já foi roubada, desmembrada, contrabandeada, escondida em uma mina de sal e caçada pessoalmente por Adolf Hitler. Estamos falando do Retábulo de Gante, também conhecido como “Adoração do Cordeiro Místico”, pintado pelos irmãos Hubert e Jan van Eyck em 1432. Não é exagero dizer que se trata da obra de arte mais roubada da história: ao longo de quase 600 anos, o políptico foi alvo de pelo menos treze crimes distintos, incluindo seis roubos completos ou parciais.
Se você está planejando uma viagem a Gante, entender essa história antes de visitar a Catedral de São Bavão transforma completamente a experiência. E se você já assistiu ao filme “Caçadores de Obras-Primas” (“The Monuments Men”, 2014), estrelado por George Clooney e Matt Damon, vai reconhecer imediatamente um dos capítulos centrais dessa trama real.
O que é o Retábulo de Gante?
O Retábulo de Gante é um políptico — uma pintura composta por múltiplos painéis articulados — encomendado pelo rico mercador Jodocus Vijd para a capela de sua família na então Igreja de São João Batista, atual Catedral de São Bavão. A obra é considerada a primeira grande pintura a óleo da história da arte, marcando a transição entre a Idade Média e o Renascimento no norte da Europa.
Composto por doze painéis de carvalho, o retábulo mede aproximadamente 4,4 por 3,5 metros e pesa mais de duas toneladas. Quando fechado, exibe profetas do Antigo Testamento e uma cena da Anunciação; quando aberto, revela seu tema central — um cordeiro sobre um altar, cercado por santos, anjos e apóstolos em um prado verdejante, simbolizando o sacrifício de Cristo. Um cardeal italiano da época chegou a chamá-lo de “a pintura mais bela da cristandade”.

Historiadores de arte debatem até hoje qual dos dois irmãos van Eyck é responsável por qual parte da obra: acredita-se que Hubert, o mais velho, tenha projetado a estrutura geral na década de 1420, morrendo antes da conclusão, enquanto Jan van Eyck — o mais famoso dos dois — teria terminado a maior parte dos painéis até 1432.
Por que o Retábulo de Gante é tão cobiçado?
Ao longo dos séculos, o retábulo se tornou alvo de reis, exércitos e ditadores por uma combinação de fatores: seu valor artístico incomparável, seu significado religioso profundo e, paradoxalmente, seu próprio tamanho e fama, que o tornaram um troféu simbólico de poder. Quem possuísse o Retábulo de Gante estaria, de certa forma, possuindo um pedaço da própria história da arte ocidental.
O roubo de Napoleão
O primeiro grande roubo aconteceu durante a Revolução Francesa. Em 1794, tropas de Napoleão Bonaparte saquearam quatro painéis do retábulo e os exibiram no recém-criado Museu do Louvre, em Paris. Somente após a derrota final de Napoleão em Waterloo, em 1815, os painéis foram devolvidos a Gante.
A venda de seis painéis e o Tratado de Versalhes
Em 1816, um vigário-geral da Catedral de São Bavão, endividado, vendeu seis painéis da obra a um negociante de arte, alegando que estavam “comidos por vermes” — quando, na realidade, encontravam-se em excelente estado. Os painéis acabaram nas mãos do rei da Prússia e ficaram expostos em um museu de Berlim por cerca de cem anos. Só foram devolvidos à Bélgica em 1919, como parte das reparações de guerra previstas no Tratado de Versalhes, ao final da Primeira Guerra Mundial.
O painel desaparecido de 1934
Em 1934, um dos doze painéis originais — conhecido como “Os Juízes Justos” — foi roubado da própria Catedral de São Bavão, em pleno território belga, em tempos de paz. O ladrão exigiu um resgate milionário à diocese, mas nunca revelou o paradeiro da peça antes de morrer. Até hoje, mais de noventa anos depois, o painel original nunca foi recuperado, e um detetive da polícia de Gante permanece oficialmente designado para o caso — um dos grandes mistérios não resolvidos da história da arte europeia. O painel visível hoje na catedral é uma cópia pintada nas décadas seguintes.
Hitler, Göring e a corrida nazista pelo retábulo
O capítulo mais dramático da história do Retábulo de Gante, no entanto, aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. Tanto Adolf Hitler quanto seu braço direito, Hermann Göring, desejavam desesperadamente possuir a obra — em parte, segundo especialistas, como forma simbólica de “corrigir” a devolução forçada dos painéis à Bélgica determinada pelo Tratado de Versalhes.
Diante da iminente invasão alemã, o governo belga decidiu enviar o retábulo para o Vaticano, em busca de segurança. A obra, no entanto, foi interceptada no sul da França pelas forças nazistas e levada primeiro ao Castelo de Neuschwanstein, na Baviera, e depois escondida em uma mina de sal em Altaussee, na Áustria — um depósito secreto que chegou a abrigar mais de 6.500 obras de arte saqueadas de toda a Europa ocupada, destinadas ao gigantesco “Führermuseum” que Hitler planejava construir em Linz.
Circulam até hoje teorias mais fantasiosas sobre o motivo dessa obsessão nazista — incluindo a lenda de que a iconografia complexa do retábulo esconderia um mapa para relíquias cristãs perdidas, como o Santo Graal. Historiadores sérios descartam essas teorias, mas elas ajudam a explicar por que a obra se tornou, na cultura popular, quase um artefato lendário digno de um enredo de Indiana Jones.
A missão de resgate dos Monuments Men
Foi nesse contexto que entrou em cena o grupo apelidado de “Monuments Men” — oficialmente, a seção de Monumentos, Belas Artes e Arquivos das forças aliadas, formada por historiadores da arte, curadores e arquitetos recrutados para localizar e recuperar as obras roubadas pelos nazistas. Dois de seus integrantes, Robert Posey e Lincoln Kirstein, chegaram até o esconderijo de Altaussee após uma sequência quase cinematográfica de acontecimentos, envolvendo, segundo relatos, uma dor de dente que os levou até um ex-oficial da SS que também era historiador da arte e conhecia o paradeiro do tesouro escondido.
Em 1945, com a queda do regime nazista, o Retábulo de Gante foi finalmente resgatado da mina austríaca, junto a milhares de outras obras saqueadas, e devolvido à Bélgica em uma cerimônia oficial. É exatamente essa operação de resgate que serve de base histórica para o filme “Caçadores de Obras-Primas” (2014), dirigido e estrelado por George Clooney, com um elenco que inclui Matt Damon, Cate Blanchett e Bill Murray. Embora o filme condense e dramatize os fatos para fins narrativos, o esforço real dos Monuments Men para salvar obras como o Retábulo de Gante das mãos nazistas — e da possível destruição, caso a Alemanha entrasse em colapso antes da chegada dos Aliados — é rigorosamente real.
Onde ver o Retábulo de Gante hoje
Depois de sua longa e atribulada jornada, o Retábulo de Gante está de volta ao seu lar original: a Catedral de São Bavão (Sint-Baafskathedraal), no coração do centro histórico de Gante. A obra passou por um extenso e minucioso processo de restauração nas últimas décadas, que revelou detalhes e cores originais há muito obscurecidos por camadas de verniz e repintura.
Para quem visita Gante, ver o retábulo pessoalmente — sabendo de tudo o que ele atravessou para continuar ali, praticamente intacto, seiscentos anos depois de ser pintado — é uma experiência que vai muito além da apreciação estética. É testemunhar, diante de uma única pintura, boa parte da própria história política e militar da Europa: a Revolução Francesa, o Tratado de Versalhes, a ascensão do nazismo e o esforço aliado para preservar o patrimônio cultural do continente em meio à guerra.
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